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10 de junho de 2013

O som da ditadura

Uma das matérias mais difíceis. Foi assim que terminamos –pela décima vez- a reportagem sobre a ditadura. Não fizemos isso por ter erros, mas por querer fazer o melhor. Ser atraente, de fácil compreensão, sem esquecer detalhes importantes e interessantes. Cuidamos para não escrever com sensacionalismo, com emoção demais ou de menos. Contextualizamos o período com as experiências dos cases e enriquecemos ainda mais, com as informações de especialistas.

 E, mesmo tratando-se de um assunto tão delicado, violento e doloroso, ficamos tristes por não ter mais de escrever sobre ele. Conhecemos histórias incríveis - que há de melhor na área do jornalismo-, descobrimos fontes ao acaso e na maioria das vezes, nos esforçamos – muito- para ter acesso aos relatos das pessoas. Apuramos, checamos, checamos de novo, confirmamos e até sonhamos com a bendita matéria.

                Torcemos para que os leitores se interessem pelo assunto e para conhecer um triste período da história brasileira.  Querendo ou não essa fase reflete em nossa sociedade até hoje. Quer saber como? Aguarde. A Exceção em breve estará pronta.

20 de maio de 2013

Dilemas da reportagem


(Para compartilhar um pouco do dilema que eu e a minha colega da reportagem sobre a ditadura, Josiane Goetze, vivemos nos últimos dias)

O assunto é delicado. Chocante. Triste. Sério. O assunto precisa ser abordado.
A reportagem deve ser atraente, detalhada, em profundidade. Mas não pode ser sensacionalista.

Precisamos dar detalhes.
Quando o case é uma vítima de tortura, obter detalhes significar remexer uma ferida.
Não podemos invadir a privacidade, nem machucar ninguém. Não queremos que os pesadelos voltem.
Queremos escrever. Contar a história. Mostrar o exemplo de superação. Acima de tudo, valorizar a história de quem nos fala. Queremos passar a emoção que sentimos. 

Precisamos de mais fontes. Temos fontes de mais. Podemos cortar? Faremos mais uma entrevista? Podemos perguntar de novo? Precisamos confirmar. Temos que procurar o outro lado da história.

É preciso ter sensibilidade. É preciso saber o limite. É preciso saber ir além. É preciso ter coragem. É preciso feeling. É preciso ter vontade de (re)escrever. E paciência.

Por fim, é preciso cortar. A reportagem extrapolou o limite de caracteres. E muito.

5 de maio de 2013

Para nunca esquecer

(Clique aqui e aperte o play antes de começar a ler)

Foi como levar um soco no estômago. A sensação ao sair da exposição "Onde a esperança se refugiou", na terça-feira, 30 de abril, foi um misto de angústia, dor, tristeza e muita revolta. O mal-estar que deixou a mim e a Josi Goezte sem palavras tem haver com um ferida, com uma fenda na história brasileira, com um período da história da América Latina. 

Fotos e sons originais na época estabelecem clima de tensão. Como não se arrepiar?

 A ditadura militar e os seus sons - pauta da nossa matéria para a Exceção - apresentaram-se para nós da forma mais completa possível na mostra sediada na Usina do Gasômetro, em Porto Alegre. A exposição multimídia reúne fotos, depoimentos inéditos sobre a ditadura, documentos oficiais do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH) e os rostos de 366 vítimas do regime militar.


O choque ao encontrar o próprio rosto refletido no espelho em meio às vítimas do regime militar


Se as imagens já impactam, a trilha sonora presente nos cinco eixos da exposição é, sem dúvida, o grande diferencial. A atmosfera de tensão percorre toda a mostra: sons de sirene do carro de polícia, trechos de discursos dos militares, gritos nas manifestações contra a repressão...É como se estivéssemos nas ruas, há mais de 40 anos. É como se estivéssemos presos. É como se víssemos nossos amigos e colegas mortos. É como se fôssemos impedidos de pronunciar qualquer palavra. 


Por fim, a certeza de que a verdade e a luta devem permanecer

Ao sair, elogiamos a exposição multimídia para os recepcionistas. Saiu um "Está muito legal". Mas, a palavra não era "legal". Sequer sabíamos como definir o que estávamos sentindo... 

O que soubemos naquele momento, reafirmamos agora e nos esforçamos para que possa ser dito com a maior ênfase possível na matéria que estamos produzindo para a Exceção. O que sentimos naquele momento e temos a obrigação de mostrar como futuros jornalistas é que essa história faz parte da história de cada um de nós. Mais do que isso: que cada um de nós tem o dever de manter viva a memória desse período para que isso nunca mais se repita. É só assim que declarações absurdas, como as de Lobão, divulgadas nesta semana, não sejam pronunciadas. Nunca mais.


Crédito das fotos: Juliana Bencke